Reportagem do jornalista e escritor Maylson Honorato sobre vaqueiros no interior de Alagoas

VIDAS FORA DO TEMPO: a narrativa visual de Jorge Vieira sobre uma forma de existir em Alagoas

O sol já se deitou e somente os resquícios rasgam o horizonte, bem na terra da liberdade, União dos Palmares, Zona da Mata de Alagoas. O homem gasta sua solidão ali, sentado numa velha cadeira de balanço, contemplando os últimos raios do astro-rei e cercado pelas galinhas famintas. Ele tem nome: Gerson Bezerra da Silva. E foi a batalha diária dele que inspirou a nova exposição de Jorge Vieira, em cartaz no Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa).

A mostra Vaqueiro sintetiza um estilo de vida que se sustenta na simplicidade e que destoa dos tempos modernos — líquidos —, quando o tempo escorre pelas mãos; quando olhamos e não vemos nada, a não ser pressa e metas a bater. O vaqueiro, por sua vez, lida com a vida em seu ritmo. O trabalho é duro e começa às 3 horas da manhã, com uma densa neblina que invade os celeiros. Ele também está faminto, mas não de comida ou de coisas. Sua fome de vida está evidente em seu semblante ensolarado, defende o fotógrafo.

Essa é a atmosfera empolgante e bucólica que ambienta a exposição de Jorge Vieira, uma narrativa visual que pretende contar a história de Gerson, o vaqueiro, e ainda provocar o observador sobre pressa, diversidade e, principalmente, felicidade e simplicidade.

Para chegar às 21 fotografias que compõem a mostra, o fotógrafo, apaixonado por histórias humanas, acompanhou a lida de Gerson por dois anos, em busca de capturar as minúcias daquele cotidiano, que parece não estar no tempo presente, mas em meados do século passado. Além das fotografias, o realizador lança sua primeira produção audiovisual, um documentário que completa a imersão na vida no campo.

O fotógrafo Jorge Vieira, personagem de reportagem assinada pelo escritor e jornalista alagoano Maylson Honorato, sobre a vida no interior de Alagoas
O fotógrafo alagoano Jorge Vieira

Logo de início, o espectador verá o bicho que protagoniza a vida da fazenda de leite onde Gerson trabalha: a vaca. Há registros até dos olhares trocados entre o ordenhador e a leiteira, que mais parecem preservar uma relação de parceria e amizade. Entre as fotografias, estão elementos utilizados pelo peão, como sua velha sela e uma rédea antiga.

Apesar de ter sido seu próprio curador nos 45 minutos do segundo tempo, revela Jorge Vieira, a mostra contou com edições de Nair Benedicto e Fabiana Figueiredo. Benedicto é uma das mais celebradas profissionais da fotografia brasileira e fundou uma das primeiras agências de fotojornalismo do país. Assim como Jorge, ela é apaixonada pelas histórias das pessoas comuns e, em sua melhor fase, dissecou o cotidiano popular, adentrando os forrós, investigando a noite e a posição das mulheres das classes minoritárias. Suas fotografias integram os acervos do MoMA, de Nova Iorque, do Smithsonian Institution, em Washington, do MAM/RJ e da Coleção Masp-Pirelli.

Fabiana Figueiredo é outra reconhecida fotógrafa dedicada ao registro histórico. Foram elas, então, que desenharam o percurso para conhecer a história de mais um homem simples que, para os artistas, é poesia viva e tem muito a ensinar.

“Uma semana antes de abrir a exposição, tive a felicidade de encontrar Nair Benedicto na casa de Celso Brandão. Mostrei as fotos e o documentário para ela, que falou que, se eu permitisse, gostaria de editar o meu trabalho. De 35 imagens, Nair e Fabiana selecionaram 21, o que me deixou muito satisfeito”, conta o fotógrafo.

Jorge Vieira conheceu Gerson Bezerra da Silva na fazenda de um velho amigo, há cerca de três anos. Ele conta que passou a observá-lo chegando de madrugada e o acompanhava em meio à neblina da serra.

O vaqueiro Gerson, personagem da reportagem de Maylson Honorato, escritor e jornalista alagoano
O vaqueiro Gerson, personagem central da nova exposição de Jorge Vieira

“Percebi que havia ali uma grande história, pois ele me dava lições diariamente. Então, dois anos atrás, conversei com ele para fazer uma série de fotografias que contaria um pouco dessa história. Tanto ele quanto seu patrão aceitaram a ideia.”

O fotógrafo explica que há vários tipos de vaqueiros nesse ramo, algo que Gerson faz questão de esclarecer. Ele mesmo é vaqueiro de leite e de campo, ocupações muito distantes da vaquejada, por exemplo, que Gerson considera prejudicial, por ir ao encontro da relação que tem com os bichos.

“Então passei a frequentar a casa de Gerson, conheci sua família, seus rituais pessoais, e o resultado é o que está aqui [na exposição] e também no minidocumentário que produzimos”, pontua.

SENHOR DO CURRAL

“A primeira coisa que me chamou a atenção foi a sua felicidade em ser vaqueiro. Pois, para quem vê de fora, é um povo marcado, como diz a música de Zé Ramalho. Quem vê de perto, como eu vi, percebe que é um povo feliz.”

O relato do fotógrafo revela que a vida de sacrifício, estigma e invisibilização não conseguiu tirar de Gerson o riso ou a esperança. Ele é vaqueiro há 35 anos, beira os 60 de idade e lembra de tirar leite de vaca já aos 10 anos. Quando Jorge Vieira diz que o riso do vaqueiro o motivou, explica que foi mais do que um simples sorriso. O que primeiro lhe chamou a atenção foi se deparar com um homem praticamente isolado, sofrido, que preserva esperanças e sonhos, que devaneia junto aos bichos e que se orgulha de ser o que é e de estar onde está.

Reportagem do jornalista e escritor alagoano Maylson Honorato
Foto de Jorge Vieira mostra o vaqueiro Gerson em sua lida diária, no interior de Alagoas

“Foi o seu senso de felicidade, esse sentimento profundo por sua profissão, como se ser vaqueiro fosse a coisa mais importante da vida dele. E é. Isso me capturou de imediato. Outra coisa foi sua relação com o patrão. As pessoas têm essa imagem de que os ruralistas são exploradores etc. Então, ele tem uma relação de uma vida inteira com o patrão; transita na casa, é o senhor das vacas e, inclusive, toma conta das finanças do curral. O que entra, o que sai de leite, é ele quem controla. Ele reconhece que trabalha muito, mas diz que tirá-lo de lá é fazê-lo adoecer. Quando veio para cá, na abertura da exposição, estava o tempo inteiro preocupado em perder a ordenha do outro dia. Ele chama as vacas pelo nome e acredita que, se deixar de ordenhar a vaca, ela pode morrer. É um personagem que nos ensina que podemos ser muito mais felizes com coisas que não se detêm. Fez-me perceber que eu nem precisava de coisas que julgava precisar”, relata o fotógrafo.

“Eu, por muitas vezes, chego em casa e ligo a televisão, mesmo sem querer assistir a nada. Como se tivesse medo do silêncio. Ele chega em casa, tira suas tralhas, senta na cadeira de balanço e fica satisfeito em assistir às galinhas ciscando.”

A comparação evidencia a simplicidade como um dos eixos da exposição, que se debruça na provocação do espectador, que, para o fotógrafo, deve se permitir espantar-se com o simples e enxergar a felicidade sob outra perspectiva.

AS HISTÓRIAS ESTÃO NAS RUAS

A exposição Vaqueiro não é apenas sobre Gerson Bezerra da Silva, esclarece o fotógrafo. Apesar de se basear em sua vida e ter o peão como protagonista, a mostra fala sobre os “Gersons” espalhados pelo Brasil, conta Jorge. É sobre esse estilo de vida que, ao longo da história, pouco sofreu alterações em seus procedimentos, como se existisse um outro mundo onde muitos dos velhos costumes resistem ao tempo. Um lugar que não foi capturado pelo corre-corre, pela ansiedade ou pela solidão modernas.

“É claro que é principalmente sobre ser feliz sem as exigências que, sobretudo, nós, urbanos, fazemos. Dizemos: ‘ah, quando eu fizer isso, quando eu tiver aquilo’, enquanto eles só querem ver um fim de tarde ou permanecer em paz com o seu entorno. Porém, acaba falando de vidas destoantes; por exemplo, ele nem precisa dessa consciência ecológica que tentamos implantar. É natural para ele se preocupar com a água, com a mata. Trabalha sozinho, mas conversa com os bichos e conta que, enquanto faz a ordenha, viaja nos pensamentos”, diz o realizador.

ESCAMBO

É no leite que Gerson deposita sua esperança, a “mega-ambição” de comprar vacas para cuidar. Ele vendeu as que tinha para construir uma casa e agora espera Deus dar bom tempo. Enquanto isso, produz laranja, macaxeira, mas não cultiva inhame, por exemplo; então recorre ao vizinho e troca leite por inhame ou uma galinha por outra mercadoria. Uma vida que funciona e que era comum até o início do século passado.

“A própria atividade dele é antiga. Não precisa oferecer dinheiro, porque tem o que o outro precisa e vice-versa. Tem acesso fácil ao que deseja e tem uma alimentação muito melhor que a minha, por exemplo. Quem não gostaria de deixar de ficar 24 horas se preocupando com dinheiro para comprar coisas?”, indaga o artista.

Para capturar tanto o universo físico quanto o emocional, o fotógrafo produziu seu primeiro documentário, que traz momentos da vida do vaqueiro em casa, suas madrugadas e uma contundente fala sobre felicidade. Jorge alerta que a mostra e o documentário não são produções meramente românticas; pelo contrário, registram o momento atual e exibem uma parte da sociedade que é completamente ignorada, como se inexistisse. O documentário estará disponível na internet após o encerramento da mostra.

“São produções críticas, que tratam das limitações dele, da carga que ele carrega; só são poéticas por ele ser um ser de muita poesia. Acho que o documentário completa a exposição, como se ela funcionasse como uma introdução para essa história de ancestralidade, sobrevivência e milagre”, comenta o artista, enquanto contempla a fotografia feita por ele mesmo, como se parasse no tempo. Na imagem, o esqueleto de boi pendurado na cerca afasta a inveja e mantém o gado sadio.

“A gente não fotografa com a câmera, mas com a nossa história”

Jorge Vieira atribui sua formação humanizada ao local onde nasceu. Em União dos Palmares, envolto na história de Zumbi, cresceu acreditando na liberdade e em fazer uma leitura social do mundo. Começou a estudar fotografia no início da década de 1990, porém ocupou-se por anos com outras atividades criativas. Especializou-se em design, trabalhou com bambu e retornou, em 2014, à fotografia de forma definitiva, segundo ele.

No entanto, sempre esteve certo de que a quintessência de seu trabalho está nas histórias humanas. E elas estão nas ruas.

“Foi a rua que me chamou, então eu fui. Sempre me encantei com as expressões, com o movimento das pessoas na cidade. Há tantas histórias a serem contadas, e isso é tão desafiador. Até porque, na fotografia, você não tem a palavra; precisa contar a história com imagens, então a narrativa depende do olhar que dialoga com a fotografia”, provoca.

É esse o convite que o fotógrafo faz aos espectadores da exposição Vaqueiro: dialogar com as fotografias, parar para vê-las. Nos celulares, que inclusive fazem ligações, imergimos em um turbilhão de imagens de toda sorte. Contudo, Jorge Vieira faz questão de diferenciar o que é consumido rotineiramente de seu trabalho como fotógrafo.

“É uma questão bem atual. E é interessante que, nos celulares, a busca é pela nitidez absoluta, pelo foco preciso. Já na fotografia, apesar de a técnica ser importante, não é prioritária. Para mim, mais importante é o conceito. Não precisa ter uma câmera absoluta; precisa ter é olhar. A gente não fotografa com a câmera, mas com a nossa história, com o que a gente viu e ouviu, com nossa vivência no mundo. Então existe essa diferença, que não é somente técnica, pois o cerne da fotografia é o olhar. Faço questão de diferenciar a fotografia, com ‘F’ maiúsculo, das imagens. A fotografia a gente lembra, quer voltar; as imagens são tantas que nossa relação com elas é líquida. Mas fotografia, não. Fotografia a gente guarda”, finaliza Jorge Vieira.

REPORTAGEM PUBLICADA NO JORNAL GAZETA DE ALAGOAS EM 18 DE AGOSTO DE 2018

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